A adaptação da pessoa idosa na ILPI: O que esperar e como a família pode ajudar nessa transição.

Juliana Chaer
4 min
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A decisão de levar um familiar para uma ILPI raramente é fácil. Ela costuma chegar após  noites mal dormidas, conversas difíceis e, muitas vezes, uma crise de saúde que deixou claro  que o cuidado em casa já não estava sendo suficiente. Quando a mudança finalmente  acontece, surge uma nova angústia: “Meu familiar vai se adaptar?” 

A resposta, na maioria das vezes, é sim. Mas a adaptação tem um ritmo próprio, e entender  esse processo faz toda a diferença, tanto para o residente quanto para quem ficou do lado  de fora. 

A adaptação não é um evento, é um processo 

O primeiro mês em uma ILPI costuma ser o mais delicado. É quando a pessoa idosa está  confrontando, ao mesmo tempo, uma mudança de ambiente, de rotina, de vínculos e, em  muitos casos, de identidade. Sentir saudade, resistência e até tristeza nesse período não é  sinal de que a decisão foi errada. É sinal de que a pessoa ainda tem capacidade emocional  para sentir e reagir. 

Do ponto de vista técnico, o que observamos é que a adaptação acontece em camadas.  Primeiro o corpo se habitua: o ritmo das refeições, os horários, o próprio espaço físico. Depois  vêm os vínculos: uma cuidadora que passa a reconhecer as preferências do residente, um  colega de corredor com quem se troca um bom dia. Por último, e esse é o passo mais bonito  de acompanhar, vem o pertencimento: o idoso começa a chamar aquele lugar de “casa”. 

Não existe um prazo fixo para tudo isso acontecer. Há pessoas que se encontram em duas  semanas. Outras precisam de três ou quatro meses. O que acelera ou dificulta esse processo  tem muito a ver com a história de vida da pessoa, o grau de autonomia que ela ainda preserva  e, principalmente, a qualidade do suporte que a família oferece nesse momento de transição. 

O que a pessoa idosa pode sentir na chegada 

É importante que a família entenda o que pode estar acontecendo emocionalmente com seu  familiar, para não interpretar reações normais como problemas graves. 

Luto pela vida anterior 

Mesmo quando a ida para a ILPI era necessária e desejada, existe um luto real. A pessoa  idosa está deixando para trás uma rotina, um lar, objetos com memória afetiva e uma noção  de independência que pode ter sido central na sua identidade. Esse luto precisa ser  respeitado, não apressado.

Sensação de abandono 

Infelizmente, é comum. Mesmo que a família visite com frequência, o idoso pode sentir que  foi “posto de lado”. Isso não reflete necessariamente a realidade, mas é uma percepção que  precisa ser acolhida, não rebatida. Explicar as razões da mudança de forma clara, honesta e  respeitosa, mais de uma vez se necessário, é parte do cuidado. 

Dificuldade de conviver com outros residentes 

Compartilhar espaço com pessoas desconhecidas não é natural para todos. Algumas  pessoas idosas se adaptam rapidamente e constroem amizades genuínas. Outras precisam  de mais tempo e de mediação da equipe para encontrar seu lugar dentro da dinâmica coletiva. 

Agitação ou regressão de comportamento 

Em alguns casos, especialmente em pessoas idosas com comprometimento cognitivo, a  mudança de ambiente pode provocar um aumento temporário de agitação, confusão ou  comportamentos que a família nunca tinha visto. A equipe de enfermagem e os demais  profissionais já conhecem esse fenômeno e estão preparados para manejá-lo. O importante  é comunicar qualquer mudança observada. 

Como a família pode ajudar 

A presença da família não perde importância depois que a pessoa entra na ILPI. Ela muda  de formato, mas continua sendo um dos fatores mais determinantes para uma boa adaptação. Nas primeiras semanas 

• Visite com regularidade, mas sem excesso nas primeiras semanas: visitas muito  frequentes logo no início podem dificultar o processo de criação de vínculo com a  equipe e com os outros residentes. 

• Traga objetos significativos: uma colcha, fotografias, o rádio que ele sempre gostou.  O ambiente personalizado faz diferença real na sensação de pertencimento. 

• Não faça promessas que não vai conseguir cumprir. “Logo logo você volta para  casa” pode parecer reconfortante, mas gera confusão e desconfiança se não se  concretizar. 

No dia a dia, após a fase inicial 

• Mantenha uma rotina de visitas previsível: saber que o filho vem todo sábado é mais  estabilizador do que visitas surpresas e irregulares. 

• Comunique-se com a equipe: relate mudanças no comportamento, preferências  alimentares, aniversários, histórias da vida do seu familiar que possam ajudar a  equipe a criar vínculo com ele. 

• Participe das atividades quando convidado: festividades, encontros com famílias,  datas comemorativas. Sua presença nesses momentos tem um valor simbólico  muito grande.

O papel da equipe nesse processo 

Uma boa ILPI não apenas cuida do corpo do residente. Ela observa, conversa, adapta rotinas  e cria vínculos. O cuidado técnico, a medicação correta, a fisioterapia, a nutrição adequada,  tudo isso é fundamental. Mas é a qualidade humana da equipe que define se uma pessoa  idosa vai apenas existir dentro da instituição ou se vai, de fato, viver. 

Na LEV, cada residente passa por um período de acolhimento que inclui o levantamento da  sua história de vida, preferências, rotinas anteriores e expectativas. Isso não é burocracia: é  a base do cuidado individualizado. Quanto mais a família nos conta sobre quem esse idoso  é, mais preparados estamos para recebê-lo. 

Uma palavra final 

A adaptação é um caminho, não uma linha de chegada. 
Há dias bons e dias mais difíceis, para o residente e para a família. 
O que importa é que ninguém percorra esse caminho sozinho. 
Na LEV, estamos ao lado de vocês em cada etapa dessa jornada.

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